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Virgínia Woolf e o Quarto Só Para Si

Abril 11, 2019

Nunca li nada de Virginia Woolf. Parece crime, eu sei. Mas só recentemente senti curiosidade com as obras da autora. O único livro que sempre chamou a minha atenção foi Mrs. Dalloway, talvez por ser o mais famoso da autora. Em breve irei o ler, já faz parte da minha lista de livros a ler antes do ano terminar. Com isto, e também no intuito do meu projeto literário #GirlPowerBookChallenge decidi que estava na altura de aventurar-me na mente da Virginia Woolf.

Não se trata de uma história, “Um Quarto Só Para Si” é um ensaio com base nas diversas palestras que a autora deu em universidades femininas. O principal foco destas palestras era apenas o papel das mulheres na ficção. A ideia chave da autora para que uma mulher consiga escrever e lançar-se na literatura é simples: deve ter dinheiro (ela refere até que basta cerca de 500 libras anuais) e um quarto para si. A ideia do quarto só para si, chamou-me logo a atenção, eu que gosto imenso de escrever, sempre senti a necessidade de não ter um quarto (um dia quem sabe), mas pelo menos um espaço onde conseguisse deixar a minha mente fluir. O meu cantinho de escrita.

Para ela, quem não consegue viver com estas duas dicas da autora, nunca conseguirá ter as condições necessárias para desenvolver a literatura independentemente. Parece algo meio banal, não acham? Ao início comecei a rir-me da autora. Como se hoje em dia fosse possível viver com estas condições e ainda escrever livros. Sabemos bem que destacar-se neste mercado dos livros é complicado, mas mais complicado ainda é escrever um livro do início ao fim. O facto de muitas pessoas deixarem esse sonho de lado apenas porque precisam de dinheiro para contas, despesas, casa, etc… Torna quase a ideia da Virgínia algo não alcançável. Gostava eu que esta ideia de que um quarto e algum dinheiro fosse o necessário para escrever.

O facto da autora não ter medo de referências foi algo que me deixou um pouco receosa. Muitos nomes reconheci, como o caso de Jane Eyre, um dos meus clássicos preferidos. Dando este género de exemplos, a Virginia Woolf, procura mostrar que quando uma mulher não tem uma renda e um quarto só para si, acaba por ficar dependente do meio e estilo de vida que leva. É como se vivessem presas, sem liberdade e com isso os livros que escrevem transmitem sentimentos de ódio, revolta, tristeza, falta de liberdade e alguns até mostram como as mulheres vivem dependentes dos homens.

Admito que a forma como a Virgínia Woolf fala chamou logo a minha atenção. Ao início pensei que iria encontrar um livro maçador, com uma escrita complexa e de dar dores de cabeça. Contudo, logo no primeiro capítulo dei por mim a perder-me pelas palavras da autora, deixar-me levar pelos seus pensamentos e muitas vezes concordei com a autora. Na minha opinião, a sua linha de pensamento é extremamente única. Ela não deixa completamente de lado o facto dos homens escreverem, e muitos até terem conseguido ser bem sucedidos, como o caso de Shakespeare. Apenas, ela mostra que as mulheres têm muitas amarras que as impedem de escrever ficção de sentir uma liberdade que as faça transmitir os seus pensamentos para papel.

Virgínia refere que a escrita dos homens é mais solta, como se não tivessem medo ou receios. Enquanto as mulheres quase que têm medo das suas palavras. Concordo com isto, porque é realmente verdade. Os homens sentem um à vontade a escrever porque o facto de serem homens dá-lhes aquele estatuto de “se foi um homem que fez, é bom”. As mulheres não sentem tanto essa segurança. Estou a referir-me em essencialmente a tempos já passados, hoje em dia já muitas mulheres escrevem o que querem de forma muito leve e destemida. Há grandes livros de autoras de grande destaque que escreveram histórias que se fossem publicadas no século passado, rapidamente seriam censuradas.

Notei que a autora sente uma grande empatia por Shakespeare, não passam despercebidas a quantidade de vezes que a escritora refere as suas obras como o seu nome. Um detalhe que chamou a minha atenção e que não sei se concordo ou não, foi o facto de Woolf ter dito que “seria capaz uma mulher de escrever Shakespeare?”. Eis a questão, realmente seria uma mulher capaz? Por um lado acredito que sim, por outro sinto-me um pouco cética quanto ao tema. Imagino uma mulher a escrever Romeu e Julieta? Realmente não sei.

Outra temática que admirei imenso o facto de ter sido falada foi o facto de que muitas mulheres, para concretizarem o seu sonho de publicar um livro ou serem escritoras, tiveram de se esconder atrás de um nome masculino. Conhecemos vários casos assim, sabemos bem que apenas o faziam para conseguir chegar ao patamar que apenas um homem conseguiria chegar. Será que se hoje em dia fizéssemos algo do género, teríamos o mesmo resultado que nos séculos anteriores? O facto de ser homem traz mais sucesso? É daqueles temas que dá que falar, eu quero acreditar que não, que estamos desenvolvidos a ponto de ser mulher ou homem é indiferente, mas todos os dias encontro casos que assustam e pergunto-me: seremos assim tão antiquados?

É uma obra feminista. Recomendo a todos aqueles que querem ter uma visão um pouco mais aberta de ficção e a mulher. Não é nada assim tão simples quanto parece, se hoje em dia reclamamos dos poucos direitos que as mulheres têm na literatura, uns séculos atrás era pior. Hoje em dia apesar de vermos rapidamente imensas mulheres a serem autoras, também vemos que a maioria dos livros que estão nos tops de ficção muitas vezes são homens. Porém, qual o motivo disto? Um assunto que devia ser explorado.

É daquelas leituras que nos enche o coração, apesar de muitas das informações que são nos dadas achei um pouco desnecessárias. Trata-se de uma discurso, não segue assim uma linha exata de uma história, são pensamentos da autora que acabaram por ter grande impacto. Adoraria ter tido a oportunidade de assistir a uma destas palestras da autora, a forma como ela procura dar exemplos que fazem todo o sentido. “Um Quarto Só Para Si” é um obra que recomendo a todos, sejam homens ou mulheres.

Adoraria ter o quarto para mim como Virgínia Woolf recomenda a todas mulheres que queiram embarcar na aventura que é a ficção. Gosta de que uma renda anual fosse o suficiente para dar asas ao meu sonho. Mas, é tudo uma questão de perspetiva. Os tempos mudaram, mas posso continuar a investir no sonho. Não tenho o quarto só para mim, mas tenho uma infinita rede de opções que em ajudam a escrever. Portanto, enquanto não arranjo o quarto só para mim, ao menos tempo um caderno só para mim, um computador só para mim, um sonho só para mim.

Uma leitura para o desafio literário #GirlPowerBookChallenge. Compra o livro em Wook.pt.

  • Reply
    beatrizsousa1
    Maio 1, 2019 at 11:20

    Tive de ler este livro em inglês para uma cadeira de cultura inglesa e devo dizer que gostei muito, aliás fiquei fã dela.

    • Reply
      Daniela
      Maio 8, 2019 at 18:49

      Eu não estava de todo à espera de vir a gostar tanto deste livro, pensei que seria um livro que não fosse o meu género. Mas gostei imenso, recomendo a todo! Uma obra incrível!

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